Dmitri Lobkov na Rede Globo


A RússiaÉAqui: 'O modo como você vê a vida muda', diz russo que ajudou a evacuar cidades depois da catástrofe de Chernobyl.



Hoje, aos 59 anos, Dmitri Lobkov mora em Curitiba, onde revigora suas raízes trabalhando na Casa Russa do Paraná.

Nem as três décadas longe da Rússia não dissolveram as memórias que o ex-militar Dmitri Lobkov tem da catástrofe de Chernobyl, durante a União Soviética, em 1986. Para o russo, parece que foi ontem que ele tirou milhares de pessoas às pressas de casa.


Hoje, aos 59 anos, ele mora em Curitiba e, mesmo longe do seu país de origem, faz questão de preservar as raízes trabalhando na Casa Russa do Paraná - um centro dedicado a promover a língua, a cultura, os negócios e a filantropia da Rússia no estado.

Casado com uma argentina, o russo tem dois filhos, de 7 e 13 anos.

A Rússia é aqui
Dmitri deixou a Rússia em 1989. Ele morou por um tempo na Europa e, durante uma viagem de negócios na América do Sul, em 1993, conheceu a esposa argentina.

“Aí, tive que me mudar para a Argentina para conquistá-la”, conta. Em 1995, eles se casaram. Com a esposa, Dmitri aprendeu bem o espanhol, o que facilitou o aprendizado do português.

Como ela fazia doutorado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em São Paulo, logo os dois se mudaram para o Brasil, em 2001. Foi nessa época que Dimitry, formado em engenharia, aproveitou para fazer o mestrado, concluir doutorado e aprender um pouco mais da nova língua.

Em 2008, ele conseguiu um emprego em Curitiba, cidade de onde nunca mais saiu. Nos últimos dois anos, Dmitri tem se dedicado à Casa Russa do Paraná.

“Na Casa Russa, ensinamos russo e promovemos produtos de empresas russas para o mercado brasileiro e de empresas brasileiras para o mercado russo”, explica.

Entre os produtos russos que eles tentam emplacar no Brasil, estão o chocolate russo, que, de acordo com Dmitri, é tão bom quanto o suíço; e a fibra basáltica.

“A fibra basáltica é um material revolucionário, muito usado pelos russos na construção civil. É mais resistente que o aço e mais leve que ele. Lá, estão usando há muito tempo e queremos trazer para cá”, relata.

Também estão em andamento intercâmbios entre estudantes brasileiros e russos nas maiores universidades dos dois países.

Memórias
Dmitri nasceu na Crimeia, território disputado entre a Rússia e a Ucrânia até os dias de hoje. Lá, viveu praticamente todo o período da União Soviética. Dessa época, uma das recordações mais vivas que tem é do acidente nuclear de Chernobyl, no dia 26 de abril de 1986.

O caso foi o mais grave na história da energia nuclear comercial. A explosão de um reator causou uma enorme liberação de resíduos tóxicos em grandes áreas da Bielorrúsia, da Ucrânia e da Rússia.

Trabalhadores da usina morreram e muita gente que morava na região foi contaminada por Iodo radioativo. À época, Dmitri trabalhava para o governo, no ministério dos transportes. Ele ajudou a evacuar duas cidades inteiras. “Tenho uma memória muito forte dessa experiência”, lembra.

O governo soviético transferiu 116 mil pessoas nas primeiras horas depois do desastre e mais 230 mil nos anos seguintes. À princípio, as pessoas sairiam temporariamente de suas casas.

Hoje, as duas cidades que Dmitri ajudou a evacuar, na Ucrânia, são cidades-fantasma: Chernobyl e Pripyat. “Foi complexo”, relata.

Três décadas depois da catástrofe, o balanço de vítimas continua sendo alvo de polêmica. Um controverso relatório publicado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2005 estimou em cerca de 4 mil as vítimas nos três países mais afetados.

Um ano depois, a organização ambientalista Greenpeace situou o número em cerca de 100 mil.

Sobre a União Soviética
O acidente nuclear de Chernobyl foi durante a União Soviética e, apesar disso, ele avalia o período como uma época boa para quem vivia na Rússia.

De acordo com o russo, a educação era pública também era de qualidade. “As nossas crianças podiam fazer outras atividades – como estudar música e praticar esportes – de graça e fora do horário de aula”, relata.

O russo conta, ainda, que o único gasto dos russos era, basicamente, com alimentação. Luz e água, por exemplo, eram quitados pelo governo. “Quem trabalhava para o Estado vivia bem. Tinha 30 dias de férias”, diz.

A saúde também era digna de elogios, conforme Dmitri.

Para tantos benefícios, era preciso assumir compromissos, claro. Um deles era participar das reuniões do partido, dos sindicatos...

Porém, as coisas não eram tão fáceis para quem queria ter um negócio particular. “Se você era contra, era perseguido. Mas, fazendo um balanço geral, a vida era muito boa”, afirma.

Para ele, a Perestroika e a Glasnost – políticas introduzidas na URSS por Mikhail Gorbachev – tiraram tudo dos russos. “As pessoas perderam tudo o que tinham. Perderam o estilo de vida, o trabalho. Muitas pessoas passaram mal economicamente até os anos 2000”, lembra.

Ele acredita que só agora que a Rússia está se recuperando dessa época.

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